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Medidas contra racionamento de água podem custar um Itaquerão

FSP, Cotidiano 2, p. 1; 4-6
29 de mar de 2014

Medidas contra racionamento de água podem custar um Itaquerão
Com pior seca da história, valor que Sabesp pode gastar ou abrir mão se aproxima de R$ 1 bi no ano
Estimativas consideram obras, queda de água consumida e descontos na conta devido à ameaça de rodízio

Eduardo Geraque de São Paulo

As medidas anunciadas pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) na tentativa de evitar um racionamento de água em São Paulo poderão ter um impacto financeiro equivalente à construção de mil escolas ou superior aos gastos do estádio do Itaquerão --onde haverá a abertura da Copa.
O valor pode se aproximar de R$ 1 bilhão em um ano, conforme estimativas da Folha a partir de informações divulgadas pelo Estado. Ele corresponde também ao dobro do investimento habitual da Sabesp em segurança hídrica num período de 12 meses.
O maior impacto não é de obras, mas da receita que a companhia de abastecimento deverá abrir mão com a esperada economia no consumo de água pela população.
Diante da pior crise da história do sistema Cantareira, que abastece 8,8 milhões de pessoas na Grande SP, a Sabesp lançou neste ano uma campanha para que os moradores baixem em pelo menos 20% a água usada e tenham desconto de 30% na conta.
Na prática, isso significa que a população poderá ter um gasto menor --mas, por outro lado, haverá menos recursos para investimentos.
Números oficiais mostram que, só de fevereiro ao começo de março, houve uma diminuição no consumo de água suficiente para abastecer uma cidade como Curitiba nesse mesmo período.
Questionada nas últimas semanas, a Sabesp se recusa a dizer que impacto isso tem na arrecadação da estatal.
Mas dados de consumo médio indicam que esse montante poderá atingir, no período de um ano, R$ 900 milhões --sendo R$ 200 milhões devido à redução da água utilizada e R$ 700 milhões em razão dos descontos.
A receita anual da Sabesp é próxima de R$ 11 bilhões.

'VOLUME MORTO'
Além da arrecadação que a empresa pode abrir mão, foram anunciadas obras emergenciais de R$ 80 milhões para a construção das estruturas para captação do "volume morto", água que está na parte funda das represas.
A previsão do Estado é que elas possam ficar prontas no meio do ano e que essa água que nunca foi utilizada antes possa ser suficiente para abastecer parte da Grande São Paulo por quatro meses.
A gestão Alckmin também chegou a propor a construção de um conjunto de canais e túneis para a captação de água do rio Paraíba do Sul, que abastece Rio e Minas, ao custo de R$ 500 milhões.
O projeto, porém, depende de aprovação --e só deve ter resultados no fim de 2015.
Segundo a Sabesp, foram gastos, de 1995 a 2013, cerca de R$ 9,7 bilhões em melhorias para a captação de água.

PREÇO DA FALTA D'ÁGUA
R$ 1 bilhão
em um ano
é o valor do impacto estimado nas contas do governo com as medidas anunciadas para tentar evitar um racionamento de água em São Paulo

Melhor opção não inclui rio Paraíba do Sul, diz estudo contratado por SP
Trabalho apresentado em novembro aponta Alto Juquiá como melhor solução
Após a análise, houve seca excepcional e foi preciso adotar plano que prevê tirar água do rio, afirma governo

Dimmi Amora de Brasília

O melhor plano apontado por um estudo encomendado pelo governo paulista para resolver a falta de água na região metropolitana a longo prazo não usa água dos afluentes do rio Paraíba do Sul --situação prevista no projeto que São Paulo pretende implementar.
É o que aponta uma apresentação, de novembro, feita pela empresa contratada pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB) para fazer os estudos.
O material, obtido pela Folha, detalha o Plano Diretor de Aproveitamento de Recursos Hídricos para a Macrometrópole Paulista, elaborado pela Cobrape para São Paulo.
O trabalho diz que é possível tirar água de 18 fontes diferentes no Estado para suprir a Grande São Paulo. São apresentados dez arranjos possíveis para o uso dessa água. Eles foram classificados conforme itens como custo, questões ambientais e políticas.
A melhor solução para o dotar a região metropolitana de água até 2035, diz a apresentação, envolve o uso de oito fontes diferentes --nenhuma é o rio Jaguari, que deságua no Paraíba do Sul e de onde o governo planeja retirar água.
A avaliação é que essa opção custa menos, gera menos conflitos e é mais facilmente implementada que as outras nove. A principal fonte de água seria a chamada Alto Juquiá. Ela tira a água da bacia do rio Ribeira do Iguape, que abastece uma pequena hidrelétrica da CBA (Companhia Brasileira de Alumínio).
O projeto demandaria uma negociação com a CBA, já que a empresa tem o direito de usá-la para gerar energia.

O Projeto Atual
Alckmin foi a Brasília há duas semanas pedir apoio federal a seu plano. O projeto gerou queixas do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que diz que o abastecimento de seu Estado seria afeta.
A presidente Dilma Rousseff recebeu Alckmin e pediu a dois órgãos técnicos que analisem a proposta.
Ficou acertado que São Paulo mandaria seu projeto para análise da ANA (Agência Nacional de Águas), que até ontem nada havia recebido.
Dos dez planos estudados pela Cobrape, apenas 5 são considerados viáveis devido aos custos econômicos, ambientais e políticos. E, desses cinco, apenas dois usam a água de reservatórios ou rios que desembocam no Paraíba do Sul. Ainda assim, em quantidade bem inferior ao que o governo paulista vem anunciando como necessária (5 mil l/s) e apenas a partir de 2025.
O documento aponta problemas políticos da retirada da água que vai para o Paraíba do Sul. Entre as desvantagens citadas, estão "conflitos regionais e interestaduais".

Seca Excepcional
O governo de São Paulo informou que o estudo foi concluído em novembro e, desde então, houve uma situação excepcional de seca.
Segundo o governo, a solução do Jaguari está em implementação porque é a que melhor para resolver a situação do sistema Cantareira, que abastece 8,8 milhões de pessoas e está em nível crítico. Por isso, foi acelerada.
Sobre não ter enviado os estudos à ANA, o governo informou que a própria agência já disse que o Estado tem autonomia sobre o rio.

Moradores usam água que nasce em bicas para lavar carro e fazer comida

Ana Krepp de São Paulo

Dois carros são lavados no meio de uma rua do bairro da Pedreira, zona sul de São Paulo. Não é um lava-rápido, tampouco o quintal de casa.
Diego Francisco, 22, e José Milton da Silva, 62, vão e voltam com baldes d'água que retiram de uma bica que sai de uma calçada e cai numa caixa construída especialmente para reter o volume.
São dois dos moradores da capital que utilizam diariamente água gratuita que saem de bicas nos quatro cantos da cidade para os mais variados fins: beber, lavar carros, louça, roupa, quintal e até tomar banho.
O primeiro, mora no bairro há 18 anos. O segundo, há mais de 20. Desde que chegaram por lá, a bica jorra água incessantemente, dia e noite.
"De fim de semana tem fila pra lavar o carro", diz Francisco, que no meio da limpeza, se refresca bebendo e lavando o rosto. "É mais seguro beber aqui do que na torneira de casa", afirma.
Hélio Koga, geólogo do DAEE (Departamento de Água e Energia Elétrica), no entanto, não recomenda que se beba a água que sai de bicas na cidade sem que a potabilidade seja comprovada.
"Mesmo que seja límpida e inodora, só uma análise pode garantir", afirma.
As periferias das regiões norte, sul, leste e oeste da capital têm bicas. Só na zona sul a reportagem encontrou cinco delas. "No centro não há bicas porque o solo é impermeável", explica Koga.
A água que jorrava na frente do bar onde José Cordeiro é gerente, em Artur Alvim, foi canalizada pelos moradores do bairro e transferida para a esquina de baixo, onde todos podem encher seu galões.
"Quando falta água, faz uma fila imensa, que atrapalhava quando era aqui na frente", diz Cordeiro.
Problema parecido enfrenta Mirian Souza, que tem uma bica no quintal de casa. "Nem fecho mais o portão, tinha que ficar abrindo toda hora pro povo que pega água até pra beber."
Ela diz já ter alertado os vizinhos a ferverem a água antes de beber. "Mas não adianta, eles saem já bebendo."
Mirian já tentou canalizar a água para dentro de casa, mas a pressão era pouca. Hoje em dia, até usa a água que brota na própria casa, mas só para lavar o quintal e em épocas de racionamento.
Não havia uma só bica pela qual a reportagem tenha passado que não estivesse sendo utilizada.
Na última delas, na Vila Nova Cachoeirinha, um homem tomava banho de canequinha, com xampu e tudo.
"É bom pra me limpar no meio do serviço, com esse calorão, já trago até toalha."

Cantareira registra chuvas abaixo da média há 2 anos
Segundo a Sabesp, em 24 meses, em apenas oito o volume de água superou o esperado
Sistema de represas foi dimensionado com base na estiagem de 1953, a mais crítica de São Paulo até hoje

Eduardo Geraque / Heloisa Brenha de São Paulo

As chuvas mensais sobre o sistema Cantareira estão há aproximadamente dois anos abaixo da média histórica.
Nos últimos 24 meses, em apenas oito as chuvas estiveram acima do esperado. E, mesmo assim, só em um mês, junho de 2012, o volume de água ficou bem acima do considerado normal.
Se considerarmos um período ainda maior, desde janeiro de 2010 choveu quase mil milímetros menos do que chove em média por período. Os dados são da própria Sabesp, que mede a chuva nos reservatórios todos os dias.
Cada milímetro de chuva equivale a um litro de água por metro quadrado. Em um temporal forte em São Paulo, por exemplo, daqueles que param a cidade, chega a chover 60 mm em uma hora.
Os dados indicam que uma nova série histórica de secas está sendo incorporada aos bancos de informações oficiais --o que vai mudar o planejamento do uso do sistema Cantareira para o futuro.
O sistema foi dimensionado com base na estiagem de 1953, a mais crítica de São Paulo até hoje. Especialistas apontam, porém, que 2014 pode terminar com um volume total de chuvas ainda menor do que o daquele ano.
"Das secas intensas, a mais recente foi entre 2003 e 2004. Quando analisamos a série, percebemos que ocorre praticamente uma estiagem forte a cada dez anos", diz o professor do IAG (Instituto Astronômico Geofísico) da USP, Augusto Pereira Filho.
Para ele, embora o histórico seja um fator relevante, prognósticos climáticos que ajudem a planejar as reservas de água no Cantareira devem priorizar índices medidos todo dia, como a evaporação.
"A Sabesp só se preocupa com a água que cai, mas os reservatórios também têm uma perda considerável da água que evapora, e essa perda ainda não é medida", diz.

Fora do Previsto
A Sabesp afirma que monitora adequadamente os volumes de chuva e que, apesar de eles terem sido baixos desde 2012, a crise ficou muito mais aguda no fim de 2013.
"Havia previsão de fortes chuvas para o verão, o que não ocorreu", afirma Paulo Massato, diretor da Sabesp.
Técnicos da companhia dizem que não mudariam em nada o planejamento para o último verão. Em vários outros anos, segundo eles, os níveis das represas em outubro estavam parecidos com o de 2013. Portanto não seria possível prever a atual crise do Cantareira.
Empresas e especialistas em meteorologia, no entanto, já previam que o verão 2013-2014 seria mais seco do que o normal.

Novo recorde
Nível da represa cai para 13,8%
O sistema Cantareira, que abastece parte da região metropolitana de São Paulo, continua a bater recordes negativos. Ontem, o nível chegou a 13,8%, o mais baixo da história. No mesmo dia de 2013, o índice estava em 61,9%. Segundo dados da Sabesp, o sistema opera em estado crítico.

Apostas contra a seca
Em ano eleitoral, governo de São Paulo teve que preparar, a toque de caixa, duas medidas para tentar evitar o racionamento de água

De São Paulo

Para evitar que o abastecimento de água de metade da Grande São Paulo entre em colapso no ano de eleições e da Copa do Mundo no país, o governo estadual anunciou duas medidas para tentar driblar o racionamento.
No curto prazo, a esperança do governo é que o uso do chamado volume "morto", que fica nas zonas mais profundas das represas, possa ser feito com sucesso.
As obras orçadas em R$ 80 milhões estão sendo feitas de forma emergencial em duas represas do sistema Cantareira. O uso da técnica é inédito.
A Sabesp nunca fez isso antes, mas técnicos da empresas dizem estar certos de que tudo vai funcionar.
O projeto que está virando realidade demorou apenas algumas semanas para ficar pronto e ainda está sendo ajustado à medida em que as obras avançam.
No médio prazo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou a transposição de águas entre as represas do Cantareira e o rio Jaguari, um dos afluentes do Paraíba do Sul, que também abastece o Vale do Paraíba e o Rio de Janeiro.
A medida, prevista para 2015, é polêmica porque o Rio teme que esse projeto roube água de suas torneiras.

FSP, 29/03/2014, Cotidiano 2, p. 1; 4-6

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/158748-medidas-contra-racion…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/158744-melhor-opcao-nao-incl…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/158745-moradores-usam-agua-q…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/158746-cantareira-registra-c…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/158747-nivel-da-represa-cai-…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/158749-apostas-contra-a-seca…

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