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Índios vendem de sementes a cerveja na onda da economia sustentável

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/mercado
17 de abr de 2018

Índios vendem de sementes a cerveja na onda da economia sustentável
Iniciativas reforçam cultura indígena e interesse por produtos da floresta

17.abr.2018 às 2h00

Rosane Queiroz
SÃO PAULO

Nada se perde em uma comunidade indígena. A primeira lição de sustentabilidade é o reaproveitamento de materiais extraídos da floresta, alimentos e utensílios no dia a dia. "Os índios não desperdiçam nada. Se pescam um peixe ou caçam um animal para comer, aproveitam resíduos, pele, dentes, espinhos, para fabricar utensílios e criar peças de artesanato", diz o antropólogo Luís Donisete Grupioni, do Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (Iepé).
Convivendo com os povos indígenas há 30 anos, Grupioni afirma que o crescente interesse nos produtos da floresta, especialmente na última década, tem favorecido projetos e políticas de sustentabilidade econômica em diversas comunidades.
"Entre cestos, colares e artefatos que atraem por sua beleza e utilidade, há o cultivo de castanhas, cogumelos, óleos, pimentas e outros ingredientes gastronômicos", afirma.
PIMENTA FORTE
A pimenta jiquitaia Baniwa é um desses produtos. Cultivada exclusivamente pelas mulheres, na cabeceira do Rio Içana, no Alto Rio Negro, noroeste amazônico, a pimenta é feita com uma mistura de 78 espécies plantadas pelas índias em suas roças e jardins.
Com diversos usos tradicionais, a jiquitaia é considerada pelos Baniwa como alimento para corpo e alma. Hoje, é usada no menu de chefs estrelados e integra a receita de uma cerveja irlandesa.
Batizada de Baniwa Chilli, a cerveja foi lançada em março deste ano, em Dublin, capital da Irlanda, pela microcervejaria Hopfully Brewing e terá 10% do valor da comercialização de toda a produção, que totaliza 500 litros, repassado à Organização Indígena da Bacia do Içana (Oibi), para apoiar a Rede de Casas de Pimenta Baniwa.
A pitada do tempero indígena na receita surgiu quando os irlandeses viram o chef Alex Atala falando da iguaria na série de TV "Chef's Table". "É mais uma maneira de compartilhar nossos conhecimentos e manter a cultura Baniwa forte", diz o líder indígena André Baniwa.
A produção da Pimenta Baniwa é parte do Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, declarado, em novembro de 2010, Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Mais uma lição de consciência ambiental.
"É um sistema mais do que orgânico porque não usamos nenhum tipo de adubo, apenas os recursos naturais da terra", explica Baniwa. Para preservar esses recursos, a cada cinco anos, eles mudam a roça de lugar. "A terra precisa desse respiro para continuar fértil."
REDE DE SEMENTES
Com uma população estimada entre 15 e 18 mil pessoas, em cerca de 200 comunidades, os Baniwa mantêm a escola indígena Baniwa, com um currículo profissionalizante voltado para geografia, medicina e meio ambiente.
Ali, aprende-se a fazer anzol, manejar a pesca, construir casas e utensílios de caça. "É preciso ensinar sobre a engenharia da vida, para garantir a sobrevivência e estimular iniciativas sustentáveis", diz o líder indígena.
A preservação da natureza, lição mais antiga dos índios, está presente no projeto Associação Rede de Sementes do Xingu. Trata-se de uma rede de trocas e encomendas de sementes de cerca de 250 espécies de árvores e plantas nativas da região, com a proposta de recuperar as matas no entorno das nascentes do Xingu.
A campanha "Y Ikatu Xingu", que quer dizer "Água Boa no Xingu", criada há 10 anos, já promoveu a colheita de 175 toneladas de sementes em caminhadas pela mata, por 450 coletores, gerando uma renda de R$ 2,5 milhões para as comunidades. Nesse período, foram recuperados mais de 5.000 hectares de áreas degradadas, que equivalem a 5.000 campos de futebol.
"A rede estimula a troca de saberes sobre a floresta e o sustento de centenas de famílias", diz o biólogo Dannyel Sá, do Instituto Socioambiental (ISA). O grande aprendizado na convivência com os indígenas, para ele, é enxergar recursos onde o olhar produtivista não vê.
"Mesmo em uma região alagada, onde não se pode plantar, o índio encontra uma casca de árvore para fazer remédio ou um tronco que transforma em escultura para vender."
SOMENTE O NECESSÁRIO
Peças de madeira, utensílios domésticos e acessórios de moda estão entre os artigos comercializados pela ONG Ponto Solidário. Desde 2002, a loja no bairro Jardins, em São Paulo, pratica o conceito de economia solidária, contribuindo com comunidades de todos os cantos do Brasil.
"A cultura indígena ainda é pouco conhecida pelos brasileiros. As pessoas que vêm à loja valorizam a cestaria, as redes, os colares de vários tipos e os bancos de madeira", diz Odile Saruê, fundadora da organização.
Há cestos circulares, típicos da cultura Yanomami, trançados com diferentes tipos de cipós, raízes e fibras, extraídos da floresta de forma sustentável. Da aldeia indígena Krahô, no nordeste do Tocantins, chamam a atenção os colares de sementes de tiririca que, segundo índia a Putkwyj Krahô, levam um dia inteiro de trabalho.
Depois de colher as sementes no brejo, as mulheres as colocam dentro de uma sacola para que germinem de um dia para o outro. Por fim, é preciso furar as pequenas sementes, uma a uma, para montar o acessório.
Odile conta que atualmente os próprios índios procuram a loja oferecendo as mercadorias. Ela observa que há uma nova geração, que usa tecnologia e tem uma visão mais aberta sobre consumo. Desde quando começou a visitar as aldeias, contudo, percebe que a maioria dos índios vive com no máximo quinze coisas, entre roupas e objetos. "Não existe a cultura de acumular, mas de compartilhar. O peixe pescado por um é distribuído entre todos", diz.
Em São Paulo, a pimenta jiquitaia Baniwa pode ser encontrada no Mercado de Pinheiros e no ISA (socioambiental.org)

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