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Humanos esgotam capital natural da Terra

FSP, Ciencia, p.A12
30 de mar de 2005

Relatório produzido por 1.350 especialistas a pedido da ONU vê declínio em serviços fornecidos pelos ecossistemas
Humanos esgotam capital natural da Terra
Cláudio Ângelo
Editor de Ciência
A humanidade está fazendo um saque a descoberto no grande (porém finito) banco dos ecossistemas globais. O resultado é um colapso futuro na capacidade do planeta de fornecer bens e serviços naturais aos seres humanos, cujo primeiro efeito prático deve ser a impossibilidade de atingir as metas das Nações Unidas de combate à fome em 2015.
Quem diz isso desta vez não são os ambientalistas, mas um grupo de 1.350 cientistas de 95 países, inclusive o Brasil. De 2001 a 2005, sob a égide da ONU, eles produziram o diagnóstico mais completo já feito da saúde dos ecossistemas e de sua relação com a manutenção da vida humana. O esforço resultou num relatório apresentado hoje a governos do mundo inteiro -no Brasil, numa cerimônia em Brasília presidida pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
As conclusões da chamada Avaliação Ecossistêmica do Milênio, como quase tudo o que diz respeito ao ambiente global, são desalentadoras: quase dois terços dos chamados serviços ambientais estão em declínio acelerado. Isso significa que a capacidade do planeta de fornecer peixe e água, reciclar nutrientes do solo, minimizar o impacto de desastres naturais (como o maremoto de dezembro na Ásia) e controlar o clima local está comprometida.
Pior ainda: as alterações feitas nos ecossistemas, especialmente nos últimos 50 anos, estão provavelmente aumentando o risco de mudanças abruptas, como explosão de epidemias -como a de cólera que afetou a África subsaariana durante o El Niño de 1997/ 98-, eutrofização de águas costeiras e mudança climática regional, induzida por desmatamento.
Para quem acha que mudanças ambientais não passam de ameaças intangíveis pairando sobre as próximas gerações em algum futuro remoto, a Avaliação do Milênio tem uma projeção imediata: a degradação dos solos e a baixa disponibilidade de água doce, especialmente na África e no sul da Ásia, devem impedir o mundo de alcançar o chamado Objetivo do Milênio de cortar pela metade o número de famintos em 2015.
"Um dos poucos serviços ambientais em ascensão é a produção de alimentos, mas não ao ponto de atingir os objetivos [de desenvolvimento] do milênio", disse à Folha o engenheiro florestal Rodrigo Victor, do Instituto Florestal de São Paulo, que participa de uma das etapas do diagnóstico.
Quatro cenários montados pelos cientistas para o futuro prevêem, ainda, que mais 10% ou 20% das florestas do mundo serão convertidas em lavoura e pasto até 2050 e que a superexploração dos estoques de peixe deva crescer ainda mais. Três deles projetam um aumento de 10% a 20% no fluxo de nitrogênio para águas costeiras, ampliando a eutrofização e a perda de biodiversidade.
Uma das recomendações do estudo aos tomadores de decisão é uma reestruturação na maneira dos economistas de fazer contas.
Até agora, a maioria dos serviços ambientais pertence ao reino daquilo que os economistas chamam de "externalidades", ou seja, fatores que não interferem nos custos econômicos. O valor da polinização de lavouras por insetos que habitam uma floresta vizinha, por exemplo, não é computado na hora de calcular o valor total daquela floresta.
Um estudo feito em dez países do Mediterrâneo e citado no relatório mostrou, por exemplo, que serviços como recreação, seqüestro de carbono, produtos florestais não-madeireiros e proteção de mananciais respondiam por até 96% do valor total das florestas. Esses serviços são desperdiçados quando uma floresta é convertida em pasto ou plantação pelo valor da sua madeira. Algo equivalente a queimar dinheiro.
"A degradação dos serviços de ecossistemas representa a perda de um ativo", afirmam os cientistas. Como tal degradação não aparece na balança comercial, países como o Equador, o Cazaquistão e a Etiópia, que tiveram um aumento de seu PIB em 2001 e experimentaram perda de florestas e recursos energéticos, teriam na verdade prejuízo caso o passivo ambiental fosse incluído.
A maioria dos serviços ambientais ainda não têm um mercado, embora o seqüestro de carbono já seja valorável com a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto.
Mesmo assim, os custos associados à perda de alguns desses serviços já se fazem sentir. Que o digam os pescadores de bacalhau da Terra Nova, no Canadá, que tiveram de parar de trabalhar nos anos 90 pelo esgotamento do peixe, com prejuízo de US$ 2 bilhões.
No Reino Unido, os prejuízos causados pela agricultura a água, solos e biodiversidade em 1996 foram de US$ 2,6 bilhões, ou 9% da receita agrícola dos país na década de 90. E as perdas econômicas causadas por desastres naturais no mundo cresceram dez vezes de 1950 a 2003 -para US$ 70 bilhões por ano. Números que não são ladainha de ambientalista.

São Paulo terá o único estudo regional do país
A Avaliação Ecossistêmica do Milênio foi encomendada em 2000 pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e organizada nos mesmos moldes que o IPCC, o painel de cientistas encarregado de avaliar o estado do conhecimento sobre o clima da Terra. Um de seus coordenadores, aliás, é Robert Watson, ex-presidente do IPCC.
A maior parte do trabalho consiste em reunir toda a produção científica sobre os ecossistemas. Mas a avaliação traz, ainda, estudos de caso feitos em 33 regiões do planeta. No Brasil, o ecossistema escolhido foi a Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo.
O mapeamento dos serviços ambientais prestados pelo cinturão à capital paulista -que vão da regulação do clima ao controle de enchentes- começa neste ano e vai até 2007. Resultados preliminares serão apresentados em São Paulo nesta sexta-feira, juntamente com resultados finais da avaliação de Portugal e do deserto de Atacama, no Chile. (CA)

O estado do mundo
0 que diz a ONU sobre a saúde dos serviços ambientais*
Água
Cerca de 1,1 bilhão de pessoas não têm acesso a abastecimento adequado e mais de 2,6 bilhões não têm saneamento. Desde 1960, o aumento no uso da água cresceu 20% por década
Controle de desastres naturais
A devastação dos manguezais no sudeste da Ásia foi um dos fatores que amplificaram a destruição causada pelo tsunami de 26 de dezembro
Pesca
Pelo menos um quarto dos estoques comerciais importantes de peixe está superexplorado. Só no Canadá,a sobrepesca provocou prejuízo de US$ 2 bilhões à indústria do bacalhau

*Serviços ambientais
São serviços "prestados' pelos ecossistemas à humanidade, mas que acabam não entrando nas contas da economia. Um exemplo é a reciclagem de nutrientes pelos microrganismos do solo. Outro é a proteção realizada pelas matas ciliares da qualidade da água consumida por seres humanos
Esses serviços podem ser de provisão (comida, água, madeira), de regulação (que afetam o clima,doenças e desastres naturais), culturais (lazer, benefícios espirituais e estéticos) e de suporte (formação de solos, fotossíntese)

Alimentos
Lavouras, gado e aquicultura: aumento substancial
Fibras
Madeira: estável (declínio em algumas regiões, aumento em outras)
Algodão, cânhamo e seda: estável
Lenha:declínio
Recursos genéticos
Declínio devido a extinções e perda de florestas
Remédios naturais
Declínio devido a extinções e perda de florestas
Controle de qualidade do ar
Declínio na capacidade de autolimpeza da atmosfera
Controle do clima
Global: ascensão do seqüestro de carbono a partir da metade do século
Local: declínio, devido à preponderância de impactos negativos
Controle da água Estável
Controle da erosão
Declínio: aumentou a degradação dos solos no planeta
Controle de doenças
Estável, a depender do ecossistema
Controle de pragas
Degradado pelo uso excessivo de pesticidas
Polinização
Incerto, mas com declínio aparente dos polinizadores
Valores estéticos
Declínio
Lazer e ecoturismo
Mais áreas acessíveis, mas muitas já degradadas

FSP, 30/03/2005, p. A12

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