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Homem levou 4.000 anos para ocupar as Américas

FSP, Ciência, p. A16
12 de Mar de 2008

Homem levou 4.000 anos para ocupar as Américas
Estudo brasileiro usou DNA para datar velocidade da migração a partir da Ásia
Chegada à Patagônia é estimada em 14,5 mil anos atrás, com saída do Alasca há 18,5 mil anos e descida pelo litoral do Pacífico

Eduardo Geraque
Da reportagem local

Eis um belo roteiro para as próximas férias: do Alasca até o sul do Chile, com paradas em Vancouver e San Francisco, ou ainda na Costa Rica e no litoral do deserto de Atacama. Segundo um estudo brasileiro recém publicado, os primeiros seres humanos que habitaram as Américas fizeram mais ou menos esse percurso, levando "apenas" 4.000 anos.
Os quase 13 mil quilômetros do Ártico até a Patagônia foram percorridos nesse período de tempo, mostram os dados genéticos analisados por Sandro Bonatto, da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). O percurso foi só um pouco diferente, porque o nível do mar estava bem mais baixo naquela época.
Os cientistas já discutem faz tempo a chamada rota de ocupação das Américas pela costa do Pacífico, sem levar em conta a idade e as feições dos migrantes. Só agora, porém, aparece uma estimativa embasada na genética para a velocidade dessa migração. Estimativas anteriores, sem precisão, apontavam que esse deslocamento teria ocorrido em poucos milênios. "Essa ocupação, podemos dizer, ocorreu de forma bem rápida", disse Bonatto, autor principal do trabalho publicado na edição do dia 7 de março da revista "The American Journal of Human Genetics".
O momento da chegada, para marcar essa velocidade de migração humana pelo litoral do Pacífico, foi 14.500 anos atrás. "Esses são os primeiros registros, confirmados, da presença do homem no sul da América do Sul", segundo os autores, tomando como base outros trabalhos recentes que estudaram materiais fossilizados.
O ano de partida, porém, também foi refinado com essa nova análise genética apresentada agora. É a primeira vez que é usado todo o DNA mitocondrial (herdado só por parte de mãe) nas estimativas e não apenas trechos, o que permitiu uma maior acurácia dos resultados, segundo Bonatto.

Genes e ossos
Os dados obtidos a partir de DNA estão de acordo com estimativas feitas com base em ossos, por outro pesquisador brasileiro. Walter Neves, da USP, ao lado do argentino Héctor Pucciarelli, é autor da teoria de que os paleoíndios (indivíduos que teriam ocupado as Américas há mais de 8.000 anos e apresentavam feições parecidas com os africanos e australianos atuais) teriam vindo do Alasca em uma onda única de migração. Depois, teriam sido substituídos por mongolóides (asiáticos típicos) em ondas de chegada diversas. A peça-chave da hipótese de Neves é o fóssil Luzia, de 11.500 anos, desenterrado em Lagoa Santa (MG).

Evidências submersas
Os dados genéticos apresentados agora também fazem o grupo de Bonatto defender a tese da migração única dos seres humanos a partir do Alasca.
Além disso, o estudo científico tenta fazer ainda uma espécie de conciliação com os dados antropológicos. "O nível do mar estava mais baixo na época da migração. Como ele subiu depois, é bem provável que os registros [fósseis] tenham ficado submersos. Já há estudos no fundo do mar, por exemplo, para tentar encontrar algo", afirma o pesquisador da PUC-RS.
A falta de registros fósseis é a grande lacuna a ser preenchida para que a teoria dos biólogos moleculares ganhe mais peso. Segundo Neves, que prefere claramente os ossos aos genes, o raciocínio com base na genética tem fragilidades. "Não existe um ponto de partida. Parece que tudo é feito para ir se encaixado", diz.
Para o antropólogo argentino Rolando González-José, do Centro Nacional Patagônico, o artigo é importante. "As várias visões [migração única ou migrações múltiplas na ocupação das Américas] precisam ser flexibilizadas e modificadas para alocar essas novas evidências".
Isso, segundo ele, já foi feito e deve ser publicado em breve por ele e por colaboradores brasileiros, incluindo Bonatto, que estudam há vários anos a genética molecular dos primeiros habitantes das Américas.

Para Walter Neves, DNA "repete" descoberta feita com ossos

O fato de o novo estudo do grupo da PUC-RS sobre a ocupação das Américas ter se baseado apenas em características genéticas dos primeiros habitantes americanos para estimar uma data de ocupação bastou para que o antropólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo, criticasse o trabalho.
"Sobre as datas, prefiro não comentar. Eles [os biólogos moleculares] apresentam novos períodos a cada seis meses", disse o antropólogo à Folha. "Não tenho nada contra a metodologia molecular, até acho ela confiável. Mas eu, pelo menos, estou dizendo há mesma coisa há 20 anos."

FSP, 12/03/2008, Ciência, p. A16

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