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Exército monta bases para evitar garimpo em terra ianomâmi em RR

FSP, Poder, p. A14
Autor: SERVA, Leão
25 de ago de 2018

Exército monta bases para evitar garimpo em terra ianomâmi em RR
Com estudo sobre organizações da sociedade civil, Idis quer mostrar seu poder transformador

Leão Serva
ALDEIA WAIKÁS (RORAIMA)

O Exército brasileiro estabeleceu bases permanentes de vigilância nos dois principais rios e interrompeu a atividade garimpeira em diversos pontos da Terra Indígena Ianomâmi, em Roraima.

Em operação que envolveu pouco mais de mil soldados, denominada Curare, militares ocuparam também o local de antiga base da Funai em região habitada por índios isolados, que podem ter sido alvos de ataque em maio passado.

A Folha acompanhou a visita do general Gustavo Henrique Dutra, comandante da operação, a locais em torno dos dois rios. Mesmo acostumado a ver cenas de garimpo, o comandante militar se surpreendeu com a velocidade do crescimento da destruição ambiental nos últimos meses.

Um dos garimpos desmantelados, chamado de Brabinho da Iolanda, próximo ao rio Uraricoera, foi detectado por ele em fevereiro passado, em um sobrevoo na região. Havia uma barraca e sinais de um pequeno garimpo, "uma fumacinha", diz.

Mais tarde, investigações mostraram que a área estava sendo loteada por aqueles que primeiro encontraram ouro. O Exército decidiu então incluí-la na operação.

Seis meses depois de descoberto, o local tem uma área devastada de cerca de 30 mil m², espalhados em torno de um eixo longo, com barracas para cerca de 50, 60 pessoas.

O estabelecimento de presença e vigilância constantes dos órgãos públicos é uma reivindicação antiga dos índios. O Ministério Público Federal, em Roraima, move ação civil pública para forçar a Funai a retomar a presença que mantinha em pontos da área ianomâmi até 2013 (e por curto período em 2015) e interrompeu alegando falta de orçamento.

Com a saída da Funai, nos últimos três anos o número de garimpeiros subiu de cerca de 1.000 para 5.000, segundo estimativas no começo deste ano. A avaliação do MPF é de que sem bases de controle de movimento de garimpeiros, em barcos ou aviões, não é possível impedir o crescimento da mineração ilegal.

Os dois rios escolhidos pelo Exército para implantar bases são os principais vetores de entrada e mineração na Terra Indígena Ianomâmi, a maior do país, com cerca de 9,6 milhões de hectares. Há outras áreas sob pressão, que não são alvo das ações em curso.

O comportamento dos garimpeiros é diferente em cada uma dessas áreas: no rio Uraricoera há alguns grandes focos, com vilas que concentram inclusive serviços sofisticados. No garimpo do Mutum há igrejas, prostíbulos, bares, além da infraestrutura de dormitórios e comida.

Os garimpos têm antena parabólica para TV e wi-fi, o que garante muita agilidade na circulação de informações.

Em julho passado, em uma visita à região, a Folha verificou no Mutum a presença de cerca de 50 barracas, suficientes para aproximadamente 300 pessoas; há outras tantas concentrações menores em volta, a curta distância de barco. Não há serviços médicos.

Por isso, quando ficam doentes, os trabalhadores ilegais do garimpo, sempre acusados de levar doenças para os índios, procuram o polo de saúde da comunidade indígena mais próxima, Waikás, exatamente onde o Exército agora estabeleceu um ponto de vigilância.

Na área do rio Uraricoera os garimpeiros tiveram notícias antecipadas da ação: havia pouca gente nos garimpos, motores mais caros desapareceram e as áreas de exploração intensiva de ouro, que usa bombas de água, estavam secas, indicando que o trabalho intensivo foi interrompido há vários dias.

Foram abordadas 13 pessoas no Brabinho da Iolanda. Interrogadas, são liberadas para descer em direção a Boa Vista, levando os alimentos para a viagem. "Nosso objetivo não é prender homens, mas interromper a atividade do garimpo", diz o general Dutra.

No rio Mucajaí, aparentemente, os focos de garimpo são espalhados, com grupos menores de trabalhadores unidos por diversas trilhas e um mesmo mercado.

Ali, diferentemente, os trabalhadores ilegais foram surpreendidos pela chegada do Exército. Quando os helicópteros, modelos Pantera e Black Hawk (para movimento de tropas), se aproximavam levando os soldados, dois aviões monomotores levantaram voo de pistas ilegais usadas pelo garimpo.

Ao chegar ao primeiro acampamento, os militares encontraram panelas ainda quentes, equipamentos de trabalho, motores. Garimpeiros foram abordados nas trilhas de fuga; a pessoa responsável pelo armazém ainda estava no local com dinheiro.

O Exército encontrou R$ 3.200 em notas e cerca de R$ 10 mil em mercadorias. O rádio ainda recebia mensagens de garimpeiros preocupados com os sinais da operação: "Como quer que eu saia, está chovendo por cima e por baixo", disse uma mensagem (os militares chegaram "por cima", de helicóptero, e por barco, "de baixo").

A operação serviu também para afastar uma hipótese que vinha sendo levantada nos últimos meses, de que o aumento dos garimpos na área ianomâmi se explicaria pela presença de trabalhadores venezuelanos. Não foram encontrados estrangeiros.

No dia 15/8, militares chegaram ao local onde fica a antiga base da Funai destinada à proteção dos índios ianomâmi isolados, na região denominada Serra da Estrutura. A missão desses soldados é preparar o local para receber uma base permanente. Eles encontraram as antigas instalações semidestruídas: um galpão derrubado e outro ainda em pé.

EXPLORAÇÃO ILEGAL MAIS PROFISSIONAL
O crescimento do garimpo ilegal na Terra Indígena Ianomâmi desde 2015 é realmente impressionante. Em reportagem em 2014, a Folha sobrevoou a calha dos rios Uraricoera e Mucajaí. As fotos da época mostram muitas balsas e pequenas marcas de destruição nas margens dos rios.

Ao voltar no último mês de julho, foi possível observar a mudança de métodos e escala de trabalho. As balsas com uma equipe de 10 a 15 pessoas, que compunham as unidades de trabalho, espécie de microempresa, deram lugar a uma exploração intensiva em terra firme, destruindo a floresta e criando imensas crateras cheias de água e barro, ao lado de dunas de terra estéril.

Além disso, helicópteros passaram a buscar o ouro, semanalmente. Antenas de wifi e a disseminação do smartphone também reduziram a circulação de dinheiro.

"Os trabalhadores entregam o ouro e recebem depósitos online em suas contas", um tenente mascarado explica ao general Dutra durante a inspeção à operação no rio Uraricoera. Os soldados locais escondem o rosto para não serem reconhecidos pelos trabalhadores ilegais.

A atividade passou a ter uma estrutura de capital mais poderosa. "A menor infraestrutura do garimpo custa algo como R$ 300 mil. É preciso ter capital. Quem paga isso não são aqueles garimpeiros pobres que a gente vê lá. São empresários que ficam nas grandes cidades", diz o delegado Alan Robson Ramos, da Polícia Federal, em Roraima.

Com a concentração de capital, a relação entre os garimpeiros e os donos do garimpo mudou: de parceiros na corrida pelo ouro, os trabalhadores passaram a empregados. Mas como os empresários detêm também o abastecimento de gêneros, sempre com preços exorbitantes, a relação passou a se caracterizar como forma de trabalho escravo.

FSP, 25/08/2018, Poder, p. A14

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/08/exercito-monta-bases-para-e…

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