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Esperança contra crise da água, Billings é caixa-preta de poluição

FSP, Cotidiano, p. C1, C4
01 de fev de 2015

Esperança contra crise da água, Billings é caixa-preta de poluição
Gestão Alckmin (PSDB) planeja aumentar o volume da represa destinado a abastecimento
Análise aponta a presença de bactéria que causa perfuração do intestino; Sabesp diz que água é tratável

EMILIO SANT'ANNA DE SÃO PAULO

A "caixa-d'água de São Paulo" --como o governador Geraldo Alckmin (PSDB) se referiu à represa Billings na última sexta-feira (30)-- é uma das últimas esperanças para aliviar a grave crise hídrica e, ao mesmo tempo, uma gigantesca caixa-preta.
Poluído, o reservatório com capacidade para 1,2 trilhão de litros de água (mas hoje com 60,8% disso disponível) é preterido há décadas para o abastecimento humano.
E, apesar de a Sabesp afirmar que tem capacidade para tratar essa água, a sujeira e a falta de informações sobre a real extensão dos problemas da Billings causam desconfiança entre os paulistanos.
Uma incógnita, aliás, no momento em que outra "caixa-d'água", o sistema Cantareira, está perto de um colapso completo que ameaça colocar a Grande SP em um duríssimo rodízio de água.
Atualmente, uma parte da água da Billings é bombeada para a represa de Guarapiranga, e outra serve a região do ABC. O que os especialistas indicam não é nada animador.
Análise realizada a pedido da Folha pela bióloga Marta Marcondes, da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, apontou a concentração de coliformes fecais cem vezes maior do que o estabelecido pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente).
Também foram encontradas bactérias que causam gastroenterite, infecção urinária, diarreias com sangue e até a perfuração do intestino.
Compostos como nitritos e fosfatos, indicadores de material orgânico em decomposição, também foram encontrados acima dos valores estabelecidos pelo Conama.
Em 2008 e 2010, estudos da USP apontaram problema ainda maior: a presença de metais pesados, potencialmente cancerígenos, como chumbo, cobre e níquel nos leitos da Billings e da Guarapiranga.
Para quem pesquisa o local, novos problemas podem surgir dessa caixa-preta com o aumento da captação.
"Quanto mais profunda for a água captada, maior a probabilidade de contaminação por esses poluentes", diz Werner Hanisch, professor de engenharia química da Unifesp.
Os caminhos que levam os poluentes ao reservatório passam pelo rio Pinheiros e pela ocupação irregular ao longo das margens da Billings.
A degradação nas proximidades da usina Pedreira, que faz a reversão do rio em direção à represa, e nos braços mais próximos chamou a atenção de Hanisch, ao sobrevoar a represa a convite da Folha. "Não era assim. Vem piorando muito nos últimos tempos. Esse cheiro constante e forte de fezes, por exemplo, começou há pouco tempo."

Plano Billings
Alçada a opção contra crise hídrica, represa é contaminada por sujeira do rio Pinheiros; água verde é resultado da presença de bactérias

EMILIO SANT'ANNA JORGE ARAUJO DE SÃO PAULO

Vista lá de cima, a Billings é verde. Lembra o mar do Caribe. Lá embaixo, porém, a boa impressão não dura muito. De perto, as águas da represa realmente são na maior parte do tempo cor de esmeralda, mas os motivos par isso não animam ninguém a mergulhar por ali.
Em meio ao esgoto despejado diariamente no reservatório, são as cianobactérias --microrganismos que se proliferam na presença de material orgânico em decomposição--as responsáveis por deixar a superfície verde. Ou seja, o motivo está mesmo no lixo.
A monotonia cromática só é quebrada quando a usina de Pedreira é acionada para reverter as águas do rio Pinheiros em direção ao reservatório, na zona sul da capital.
Na quarta (28), a reportagem presenciou os efeitos da reversão do rio --criticada por moradores, ambientalistas e pesquisadores-- quando sobrevoava a região com o professor de Engenharia Química da Unifesp Werner Hanisch, que estuda a proliferação das cianobactérias.
Na quinta (29), voltou ao local para ver os efeitos desse "corredor de sujeira".
Segundo resolução do governo do Estado, a reversão só é autorizada para controle de possíveis cheias no rio. A medida é vetada pela Constituição estadual em qualquer outra situação. Havia chovido na terça (27).
Além do forte odor característico do rio tomar a maior parte do corpo principal da represa e os braços mais próximos à usina, o lixo se espalhava pelas águas.
"Não é só a poluição do rio que vem parar aqui. É a sujeira da cidade inteira, que a chuva lava e vai parar no Tietê e no Pinheiros ", diz o advogado e ambientalista Virgílio Alcides de Farias.
Com o vento e a correnteza, a poluição é levada para os braços mais próximos da usina e, ali, se junta ao esgoto.
Num desses braços, em frente ao bairro de Pedreira, tornou-se quase impossível navegar. Qualquer barco ou lancha encalha no lixo.
A sujeira também é levada para pontos mais distantes. No braço Taquacetuba, onde é feita a captação para a Guarapiranga, a proliferação de cianobactérias indica a presença de poluição.
Procurada, a responsável pela reversão do Pinheiros, a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), estatal ligada ao governo de SP, não diz quantas vezes, neste ano e em 2014, a usina foi acionada com essa finalidade.
Também não informou se o rio corria risco de transbordar na quarta e qual o volume despejado na represa --que está com 60,8% da capacidade e, na última semana, subiu 2,3 pontos percentuais.
"Estão elevando o nível do reservatório com a água do rio", diz Jocelito Calado Lima, 52, bombeiro aposentado que mora na margem da Billings.
Na quinta-feira, enquanto levava a reportagem pelas águas da Billings, Calado usou uma luva de látex para se livrar dos sacos de lixo enroscados no motor de sua lancha. "Não vou colocar a mão aqui."
Na sexta (30), o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que, por ora, não pretende usar a terceira cota do volume morto do Cantareira, que operava neste sábado com 5,1% da capacidade.
Segundo ele, uma adutora será construída até maio para levar água do rio Grande, um braço mais limpo da Billings, para o Alto Tietê, cujo nível estava em 10,8% ontem.
Com a obra, o sistema ganharia 4 m³/s de água, o equivalente a 7,5% da produção de água da Grande São Paulo. Atualmente, a Sabesp capta 7,69 m³/s da Billings.
Colaborou FABRÍCIO LOBEL

Pescador de latinhas sobrevive do lixo da represa

DE SÃO PAULO

"Dá muito por aqui. Na verdade, é só o que dá", diz o "pescador" à beira da Billings. Dali, no entanto, não vai sair peixe nenhum. Apenas latinhas de alumínio.
Com um pedaço comprido de pau nas mãos, corpo curvado, olhar fixo na água, Odair Leal, 62, desempregado, diz que há quatro meses está vivendo exclusivamente disso --de "pescar" latas em meio à sujeira.
Por ali, o lixo quase esconde parte do braço da represa situado em frente ao bairro de Pedreira, na zona sul da capital paulista.
Da família, não tem notícias há tempos. Emprego, diz não arranjar. Sustento mesmo, só no lixo. "Cardumes" maiores desfilam na sua frente: são garrafas pet e sacos plásticos, mas esses não valem nada.
As latinhas podem ser mais difíceis de achar, mas conta diz que elas lhe rendem R$ 4 ou R$ 5 diários, mais do que necessários para conseguir se alimentar.
Há também o lixo orgânico, em profusão, formando placas no meio da água. O cheiro invade a máscara mais fechada, penetra em qualquer lugar e parece te acompanhar pelo resto do dia.
PROGRAMA
Segundo a Sabesp, há nove anos, em 2006, foi desenvolvido um acordo de cooperação técnica entre a Prefeitura de São Bernardo do Campo e o governo japonês, com participação da empresa, para elaboração de um plano de melhoria ambiental na área de mananciais da represa.
A população local beneficiada foi de 250 mil habitantes e, em toda a região metropolitana, de 5 milhões, de acordo com a companhia.
(ES)

FSP, 01/02/2015, Cotidiano, p. C1, C4

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/206442-esperanca-contra-cris…

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/206443-plano-billings.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/206444-pescador-de-latinhas-…

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