VOLTAR

Contra a maré

FSP, Mais, p. 9
09 de abr de 2006

Contra a maré
Pequenos países do Pacífico lutam contra o aquecimento global e a degradação ambiental

Os mais pessimistas talvez tivessem uma idéia sádica para promover o turismo do país: colocariam a placa "Última chance de ver" em cada praia de Palau, um minipaís de 20 mil habitantes na Micronésia, em pleno oceano Pacífico. O aquecimento global e a degradação ambiental que ele acarreta ameaçam literalmente apagar a nação do mapa, mas, se depender da iniciativa dos palauenses, ninguém por ali vai parar debaixo d'água sem luta.

"O aquecimento global é literalmente uma questão de vida ou morte para nós em Palau", disse à Folha o presidente da nação-ilha, Tommy Remengesau Jr., após um jantar de gala em Curitiba, durante a COP-8 (8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU). "Pode até ser um problema secundário para muitos países, mas para nós é o problema com p maiúsculo. O ponto-chave para enfrentar essa situação é fazer com que nosso comprometimento se transforme em ação prática verdadeira."

A conversa de Remengesau não soa muito diferente da de nenhum político do mundo, mas ele e seus colegas, líderes de outras nações e territórios da Micronésia (Ilhas Marshall, Estados Federados da Micronésia, Guam e Mariana do Norte) parecem dispostos a ir além do discurso. O jantar em Curitiba foi montado para anunciar um conjunto de áreas protegidas marinhas e terrestres com 20 milhões de hectares (o equivalente a dois Portugais), a ser implementado nos próximos anos

O chamado Desafio Micronésia, cujo arquiteto foi o presidente palauense e as ONGs Conservação Internacional, The Nature Conservancy, WWF e IUCN, tem como objetivo final proteger 30% da vida marinha e 20% da terrestre na Micronésia. Kiribati (pronuncia-se "quiribáz"), outro país-ilha do Pacífico, aproveitou para anunciar suas próprias novas reservas, com tamanho equivalente. O mesmo fez Granada, no Caribe. A iniciativa foi uma das poucas ações concretas durante a COP-8, cujas negociações diplomáticas terminaram em decepção.

Falando três dias antes do fim da conferência, Remengesau não mostrou sinais de descontentamento com o passo das decisões da COP.

"Estou otimista ao ver que essa convenção foi um pouco adiante quanto a implementar soluções. Gosto dos empurrões que têm sido dados para que aumente a participação do setor empresarial e das ONGs na conservação. Esse é o propósito da COP-8 e de outras conferências parecidas: chamar a atenção dos países desenvolvidos, para que eles vejam essas questões não apenas como problemas econômicos ou ambientais, mas como uma questão de sobrevivência para o nosso povo", diz o presidente, cujo país tem renda per capita de US$ 7.000 ao ano. De cara, o Desafio Micronésia recebeu da The Nature Conservancy e da Conservação Internacional US$ 6 milhões para começar a atuar.

Está vindo

Segundo o pesquisador canadense François Martel, diretor do programa de ilhas do Pacífico da Conservação Internacional, a atitude dos micronésios reflete a consciência sobre os riscos ambientais que a região corre, em especial por causa do aquecimento global. "Eles sabem que é algo que está vindo, e você já consegue ver os efeitos por lá", diz.

"Estamos vendo o embranquecimento dos nossos recifes de coral [fenômeno que debilita seriamente a saúde desses organismos e surge com as temperaturas elevadas], o aumento do nível do mar, que tem invadido nossas terras agrícolas, a erosão de nossas praias. Todas são situações muito reais para nós", confirma o presidente palauense.

Ao lado desses impactos, causados pela emissão de gases-estufa gerados principalmente pela indústria dos países desenvolvidos, os micronésios têm de lidar com inimigos mais sutis. Em termos de vida terrestre, a área é um "hotspot" (termo técnico que se refere às áreas mais variadas e ameaçadas do planeta quanto à biodiversidade). Pássaros, répteis e peixes de água doce são, em geral, endêmicos (só existem ali), e estão sob risco de extinção -442 espécies em perigo, para ser preciso.

As comunidades locais ainda caçam pássaros, "sobretudo pombos, considerados uma iguaria", conta Martel. E a vulnerabilidade das ilhas a espécies invasoras é legendária. O caso de Guam é emblemático. A introdução acidental de uma única serpente arbórea (Boiga irregularis) nos anos 1950 já levou à extinção de nove espécies de pássaro e ao fim de todos os lagartos endêmicos de lá. "Qualquer espécie que se extinga no mundo nos próximos anos virá dessas ilhas, com certeza", diz Martel.

Uso sustentável

Para Ana Cristina Barros, representante da The Nature Conservancy no Brasil, a ação dos dirigentes micronésios pode chamar a atenção para a necessidade urgente de manejar com responsabilidade os recursos do mar. Hoje, a atividade pesqueira tem empurrado as principais espécies comerciais de peixe para a beira do abismo.

"A extinção de espécies marinhas é muito mais associada ao nosso esforço de pesca, mas ainda falta a percepção dessa indústria [pesqueira] de que ela está colapsando porque não soube manejar a biodiversidade. Ninguém entende isso. A Natura, as empresas florestais estão dando um exemplo mais claro dessa mudança de pensamento", afirma. "O pessoal precisa começar a contabilizar o seu ativo ambiental. E se ele é um ativo você vai investir nele, vai fazê-lo crescer", diz Barros.

Muitos biólogos da conservação e ambientalistas esperavam que um passo claro nesse sentido fosse dado pela COP-8. Além de estabelecer um programa especial sobre a biodiversidade das ilhas oceânicas (ação que acabou sendo tomada), havia a expectativa de que a conferência defendesse uma moratória contra a pesca de arrasto (altamente destrutiva) e defendesse a criação de áreas protegidas em alto-mar, fora das regiões sob jurisdição dos países. No fim, decidiu-se que os dois temas eram de competência da Assembléia-Geral da ONU.

Mesmo assim, Barros se disse otimista quanto ao futuro desse tipo de reserva. "Acho que a incapacidade humana para lidar com áreas que são comuns, que não pertencem a ninguém, é passado. Somos capazes de fazer isso sim", afirma.

Enquanto o mandato da Convenção sobre Diversidade Biológica se abstém do problema, os micronésios querem seguir em frente. Remengesau, por exemplo, diz que conta com a ajuda de ONGs e cientistas para encontrar formas de repopular seus recifes de coral e trazer os peixes de volta. O presidente diz saber que essas ações não serão capazes de deter o aquecimento. "Mas é preciso começar por algum lugar."

FSP, 09/04/2006, Mais, p. 9

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.