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Colapsos amazônicos

FSP, P.B7
Autor: LOPES, Reinaldo José
16 de jun de 2019

Secas e uso excessivo de recursos podem explicar fim de civilizações da Amazônia
Da Bolívia à ilha de Marajó, sociedades complexas não faltavam na maior floresta tropical do mundo

O que caracteriza uma civilização em colapso? Diante desse tema portentoso, talvez venha à cabeça da maioria das pessoas a antiga Roma sendo engolida pelos bárbaros ou o misterioso fim das metrópoles maias. Existem exemplos igualmente interessantes, porém, bem mais perto de nós, em vários pontos da Amazônia.

Sim, a Amazônia, aquele lugar no qual quase todo mundo pensa quando vê memes falando da época "em que aqui era tudo mato". Tudo mato, vírgula, gentil leitor.

Por volta do ano 1000 da Era Cristã, num arco gigantesco que ia da Bolívia à ilha de Marajó, sociedades complexas e populosas não faltavam na região correspondente à maior floresta tropical do mundo. Entretanto, antes mesmo do impacto apocalíptico da invasão europeia a partir do século 16, várias dessas sociedades sumiram do mapa. A pergunta que não quer calar é, obviamente: por quê?

Uma tentativa ambiciosa de elucidar esse mistério está prestes a ser publicada na revista científica Nature Ecology & Evolution. Os responsáveis pelo estudo são membros de uma equipe internacional de cientistas, coordenada pelo arqueólogo brasileiro Jonas Gregorio de Souza, da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona.

O time de pesquisadores resolveu examinar a intersecção entre a organização econômica e social desses antigos grupos amazônicos, de um lado, e as idas e vindas do clima, de outro. Para isso, valeram-se de dados obtidos a partir de sedimentos do fundo do Atlântico e de um lago dos Andes, bem como de estalagmites de cavernas no Brasil. Flutuações na composição química dessas amostras funcionam como um calendário das alterações climáticas enfrentadas pela Amazônia ao longo dos séculos.

Para entender as conclusões da análise, vale a pena considerar as sociedades pré-colombianas nas pontas leste e oeste da Amazônia. Do lado oriental, temos a cultura que dominou a ilha de Marajó (PA) entre os anos 400 d.C. e 1200 d.C., mais ou menos. Esse povo construiu morros artificiais como forma de se adaptar às enchentes periódicas da ilha. Nessas grandes plataformas, havia aldeias com população numerosa e rituais funerários cheios de pompa, que deixaram para trás uma cerâmica sofisticada. Os antigos marajoaras tinham ainda represas nas quais praticavam a criação intensiva de peixes.

Já no oeste, do lado boliviano, os habitantes dos chamados Llanos de Moxos também lidavam com um ambiente relativamente aberto e periodicamente inundado, como Marajó, mais ou menos na mesma época. Construíram intrincados sistemas de canais e campos elevados para uso agrícola, o que parece ter levado ao controle desses recursos por uma elite.

Quando ondas de seca se abateram sobre a região, o que aconteceu com ambas essas sociedades poderosas? Sim, você adivinhou: colapso. Ao que parece, a dependência do uso intensivo de recursos hídricos e agrícolas e as hierarquias rígidas aumentaram a vulnerabilidade desses grupos às flutuações do clima.

Ao mesmo tempo, porém, as aldeias monumentais do Alto Xingu, com suas fortificações e estradas largas, e a "metrópole" que existia onde hoje fica Santarém (PA), sobreviveram. Esses locais resistiram ao colapso porque teriam baseado sua economia em sistemas agroflorestais -basicamente, florestas com espécies selecionadas para uso humano, suplementadas com lavouras mais modestas. Era uma estratégia mais conservadora, voltada para o longo prazo, e não para os ganhos de curto prazo.

Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.

FSP, 16/06/2019, p.B7

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2019/06/secas-e…

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