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Circo amazônico

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/
07 de Jul de 2021

Circo amazônico
Planalto manieta Ibama e torra milhões com espetáculo armado ineficaz na selva

Editorial
7.jul.2021

Após dois anos de aumento na devastação da Amazônia, novos recordes saltam das imagens de satélite. Em junho, início da estação menos úmida, sensores detectaram na região o maior número mensal de focos de queimada desde 2007.

Alertas de desmatamento também aumentam. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam 3.325 km² de corte raso da mata no primeiro semestre. Isso equivale ao dobro da área do município de São Paulo.

O governo de Jair Bolsonaro enfrenta a questão com uma improdutiva divisão de esforços entre Forças Armadas e o Ministério do Meio Ambiente. Enquanto o Ibama definha, ações espetaculares e custosas nada resolvem.

O Planalto incumbiu o vice Hamilton Mourão de encenar operosidade e destacou o ex-ministro Ricardo Salles para desmontar o que funcionava. O general anunciou 3.000 militares na Operação Samaúma, sucessora da Verde Brasil 2, e fixou meta de reduzir em 10% a 12% a devastação.

Mourão dá a entender que o desmate voltou porque a intervenção amazônica terminou em abril, mas o recuo da derrubada é normal naqueles meses de chuva. O governo só quer maquiar a imagem do Brasil antes de nova reunião internacional sobre crise do clima, a COP-26 de Glasgow, em novembro.

A Verde Brasil 2 custou cerca de meio bilhão de reais em 2020/21. De janeiro a dezembro do ano passado, apesar dela, desmataram-se mais de 8.000 km² na Amazônia, maior cifra em uma década.

Nem mesmo a defenestração de Salles e o afastamento de Eduardo Bim da presidência do Ibama reverteram o desmanche da agência. Hoje ela conta com menos de 50% dos analistas ambientais previstos, sem perspectiva de preencher vagas abertas.

Em 2020, ainda sob Salles, o ministério solicitou a realização de concurso para 970 postos vagos de analista ambiental -o que nunca aconteceu. Com Joaquim Álvaro Pereira Leite na pasta, a solicitação encolheu para 104 analistas.

A reivindicação abrange também outros cargos, como analistas e técnicos administrativos. Somando todos, o pedido do ano passado implicaria despesa adicional de R$ 136 milhões em 2022; com o encolhimento, R$ 26 milhões.

Proibir queimadas por 120 dias e encher a selva de helicópteros com soldados sem capacitação mostra bem o que Bolsonaro pretende lograr na Amazônia: nada.

editoriais@grupofolha.com.br

https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2021/07/circo-amazonico.shtml

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