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Camarão malaio pode atacar espécie do PA

FSP, Ciência, p. A11
27 de fev de 2006

Camarão malaio pode atacar espécie do PA
Espécie estrangeira é três vezes maior que a nacional e já invadiu seu habitat, alerta trio de pesquisadores

Thiago Reis
Eduardo de Oliveira

No Pará, uma espécie exótica, o camarão-da-malásia, tornou-se uma ameaça à população nativa do crustáceo, utilizada na culinária regional. É o que afirmam pesquisadores do Cepnor (Centro de Pesquisa e Gestão dos Recursos Pesqueiros do Litoral Norte), órgão ligado ao Ibama.
Criada em água doce, a espécie malaia migrou para áreas de estuário da baía de Marajó após o rompimento de um cativeiro em Bragança (224 km de Belém).
O governo estadual, por meio da Gerência de Pesca, admite que há preocupação que o problema poderá ocasionar, a longo prazo, um forte impacto ambiental.
Já Wagner Cotroni Valenti, especialista em carcinicultura (criação de crustáceos) da Unesp, diz que há "alarmismo". "O camarão-da-malásia é cultivado em mais de 70 países. Há notícias de escape, mas nenhuma publicação mostrou impacto ambiental. Não quer dizer que não seja possível, mas não há evidências disso."
Três pesquisadores do Cepnor conseguiram capturar, em dois municípios do Estado -Colares e Salvaterra-, exemplares do Macrobrachium rosenbergii (o nome científico do camarão).
Eles concluíram que a espécie está acasalando na região, já que mais da metade das fêmeas encontradas eram reprodutoras. Dizem que, em caso extremo, a espécie da Malásia pode "levar a um grande desequilíbrio das populações de camarões locais".
O camarão exótico chega a ter 32 cm e é "extremamente voraz", segundo a pesquisadora Kátia Cristina de Araújo e Silva. Dividindo o mesmo espaço com o camarão regional -que tem um terço desse tamanho-, o camarão-da-malásia, carnívoro, poderia passar a predá-lo.
"Ainda não há como quantificar o desequilíbrio, mas já é notório que ele está aparecendo em vários lugares", diz ela. Além da ilha de Marajó e do nordeste do Estado, há relatos na própria Belém, no bairro do Mosqueiro.
A pesquisadora conta que os pescadores já temem a diminuição do estoque de camarões locais. "A maioria diz que já não há mais deles como antigamente."
O presidente da Federação de Pesca do Pará, Orlando Lobato, que ocupa hoje o cargo de gerente de Pesca do governo, concorda. "No começo, a gente pensava: apareceu um camarão grandão, mais bonito e isso pode ser muito produtivo. Só depois percebemos que ele era um predador e estava comendo o menor."
Desde então, a preocupação é com a espécie Macrobrachium amazonicum, que é vendida para o preparo de pratos tradicionais, como o vatapá. Para Valenti, há uma redução da espécie local, de fato, mas as causas são outras: sobrepesca e desmatamento de áreas próximas aos rios (assoreamento). "Nada indica que o maior esteja comendo o menor."
O secretário-executivo estadual de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, Manoel Siqueira Guerreiro, disse, por meio de sua assessoria, que só irá se pronunciar após receber do Cepnor um estudo que trate do problema.
O camarão-da-malásia foi trazido ao Brasil em 1978 pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco). Apesar das condições climáticas favoráveis no Norte e Nordeste, a atividade não se firmou, em parte devido aos custos de produção mais altos.

Risco de invasor é generalizado, diz cientista
DA AGÊNCIA FOLHA
Para a bióloga Maria Regina Vilarinho de Oliveira, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, o risco das espécies invasoras vai muito além do camarão malaio. Segundo ela, a introdução de qualquer espécie nova pode desencadear processos que levam a desequilíbrios ou mesmo a desastres.
Para ela, a maioria das ações tomadas pelas autoridades ocorre depois que o problema está instalado, com impactos para o ambiente e até mesmo sociais.
"O volume de pessoas e bens que passam de uma região para outra, o que pode fazer circular espécies invasoras, aumentou nos últimos 50 anos, e nós temos de nos adequar a essa realidade", diz. "A segurança biológica é uma questão de soberania nacional." (EO e TR)

FSP, 27/02/2006, Ciência, p. A11

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