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Ayahuasca contra o desmatamento

FSP, Ciência, p. B8-B9
05 de nov de 2017

Ayahuasca contra o desmatamento
Índios e estrangeiros brincam e bebem ayahuasca por preservação amazônica

FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL À TERRA INDÍGENA RIO GREGÓRIO (AC)

No terreiro da remota aldeia Nova Esperança, no Acre, índios iauanauá e visitantes de países como Reino Unido e Turquia se congregavam para tomar a ayahuasca na cerimônia de despedida do festival anual de quatro dias, encerrado na noite do último domingo (29).
Sob uma chuva fina, o cacique Biraci Brasil agradeceu a presença dos visitantes e falou da importância sagrada da ayahuasca. Em seguida, a substância alucinógeno passou a ser servida ao som de canções iauanauá. A dança e o consumo da bebida continuaram até o amanhecer.
O uso espiritual e medicinal da ayahuasca é uma tradição secular de várias etnias amazônicas. Mas, nos últimos anos, o festival iauanauá, palco também de rituais e brincadeiras tradicionais, vem ganhando uma ajuda inusual: parte dos custos da festa foi coberta pelo banco de desenvolvimento alemão KfW.
Os recursos chegam por meio de um programa batizado de REM (Redd para os Pioneiros, na sigla em inglês) que beneficia projetos de indígenas, extrativistas e pequenos produtores rurais relacionados à preservação da floresta.
O programa adota os parâmetros do Redd+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal), mas não gera créditos de carbono para comercialização -trata-se de um mecanismo de cooperação internacional.
Na primeira fase do projeto, o repasse do banco alemão ao governo estadual do Acre, de Tião Viana (PT), chegou a R$ 120 milhões em quatro anos. O pagamento é baseado em performance, com um teto de 434 km2 de desmatamento/ano em todo o Estado. Se ficar acima disso, não há "safra de carbono", e portanto, não ocorre o desembolso.
Para a segunda fase, que será oficializada na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que ocorre em Bonn (Alemanha) a partir desta segunda-feira (6), o KfW aportará 10 milhões de euros (R$ 38,4 milhões). O Acre também está em negociações avançadas para que o governo britânico também contribua para o REM.
Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o Acre reduziu 34% do desmatamento entre agosto de 2016 e julho deste ano. Em área, o Estado perdeu 244 km2 no período, abaixo do texto estipulado no acordo o REM.
Em toda a Amazônia, a queda do desmatamento foi de 16% no período. O Acre foi o terceiro Estado que mais reduziu o desmatamento, atrás de Tocantins (55%) e Roraima (43%).
Além do Acre, o KfW financiará um programa semelhante do governo de Mato Grosso, de Pedro Taques (PSDB). O banco alemão dará 16 milhões de euros ao longo de quatro anos, em contrapartida a metas de redução de desmatamento.
"Só com dinheiro público, não dá pra combater o desmatamento", afirma André Baby, secretário-executivo da Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso. "Essas parcerias internacionais precisam ser consolidadas."
ALDEIA GLOBAL
Aos 53 anos, o cacique Bira, como é mais conhecido, já participou ativamente do movimento indígena nacional, mas nos últimos anos decidiu cuidar da sua aldeia, além de viajar pelo mundo a convite de adeptos da ayahuasca -em meados do ano, por exemplo, fez um tour por 12 países europeus.
Para ele, há uma relação direta entre o uso espiritual e medicinal da ayahuasca e a preservação: "O uni [ayahuasca, na língua iauanauá] nos reconecta com a nossa essência, com a nossa origem. É um instrumento que controla o nosso modo de pensar, de ver a natureza."
Apesar do isolamento, a aldeia de cerca de 300 pessoas surpreende pela estrutura. As casas, cercadas de roças, são de madeira e têm energia elétrica via gerador. Há internet e um telefone público.
A chegada da modernidade, porém, veio junto com regras. Na aldeia, é proibido escutar música não indígena. Há apenas uma televisão, para jogos de futebol. O álcool também foi banido, bem como igrejas cristãs.
A aldeia conta com uma boa estrutura para receber turistas -o festival ocorre há 16 anos e é uma importante fonte de renda. Há 15 cabanas, banheiros coletivos, alojamento coletivo e uma grande área coberta. As instalações foram construídas com dinheiro do REM (R$ 90 mil), doações privadas, como a do produtor cultural luso-carioca Perfeito Fortuna, e recursos dos próprios indígenas.
Para o festival deste ano, a aldeia recebeu R$ 25 mil da ajuda alemã para comprar combustível, o principal custo do grande evento -a aldeia fica a cerca de 6h de barco da rodovia BR-364. Além disso, o preço da gasolina no Acre, em torno de R$ 5 por litro, é um dos mais altos do país.
FLORESTA
Por outro lado, a aldeia Nova Esperança se opõe ao pagamento de serviços ambientais por meio do controle mais estrito do desmatamento.
"O que tem chegado até nós é o seguinte: a gente vai dar ajuda pelos serviços ambientais, mas vocês não vão poder mais mexer na floresta de vocês. Não é assim. A gente precisa mexer na nossa floresta", afirma Ubiraci Brasil Júnior, 27, um dos 34 filhos do cacique.
O REM destinou ao todo R$ 5,2 milhões a projetos em 24 terras indígenas, beneficiando cerca de 7.000 pessoas, segundo o governo estadual, que gerencia os recursos.
De acordo com dados do Inpe, a Terra Indígena Rio Gregório, onde vivem as etnias iauanauá e katukina, tem 1,11% dos seus dos seus 2.023 km2 desmatados.
"Aqui não tem igreja católica ou evangélica, mas uma liderança espiritual ayahuasqueira. O Biraci está de parabéns", diz o líder indígena e diretor do Memorial dos Povos Indígenas em Brasília, Álvaro Tukano, presente no festival.
"A melhor maneira de preservar a Amazônia se faz com espiritualismo, que eles extraem da força das águas, da ayahuasca, da floresta."
As despesas de transporte entre Rio Branco e a aldeia Nova Esperança dos repórteres FABIANO MAISONNAVE e AVENER PRADO foram custeadas pelo governo do Acre

FSP, 05/11/2017, Ciência, p. B8-B9

http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2017/11/1932854-indios-e-estrange…

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