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Atrasa vacinação contra Covid-19 de quilombolas, grupo prioritário em SP

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/03/atrasa-vacinacao-contra-covid-19-de-qui
30 de mar de 2021

Atrasa vacinação contra Covid-19 de quilombolas, grupo prioritário em SP
Comunidades no Vale do Ribeira só receberão primeiras doses nesta semana

Thiago Amâncio
SÃO PAULO

Considerados grupo prioritário no Plano Estadual de Imunização de SP contra a Covid-19, os quilombolas têm recebido a passos lentos a vacina contra a doença que já matou mais de 300 mil brasileiros, ao contrário do que diz o governo João Doria (PSDB).

A administração estadual afirma, em suas comunicações oficiais, que os quilombolas foram vacinados junto dos indígenas e dos profissionais de saúde a partir de 17 de janeiro.

A reportagem identificou duas comunidades quilombolas em Cananeia, no litoral sul de SP, onde a vacinação não havia começado até esta segunda-feira (29). São as comunidades de Porto Cubatão e Rio das Minas.

Após ser questionada, a Prefeitura de Cananeia afirmou que a vacinação nessas duas comunidades acontecerá nesta terça-feira (30) -ainda em número insuficiente para todos; em Porto Cubatão, serão doses para 70 pessoas, de uma lista de 130 feita pela comunidade.

Além disso, há outros remanescentes de quilombos que receberam apenas uma das duas doses previstas em outras cidades da região, no Vale do Ribeira.

À Folha, o governo Doria respondeu que repassou as doses aos municípios e que é responsabilidade das prefeituras vacinar essa população. "É prerrogativa das prefeituras organizar o consumo de suas grades, programar o abastecimento da rede para imunizar todas as pessoas que integram os públicos-alvo", disse, em nota.

A gestão disse também que cerca de 10 mil doses foram aplicadas em quilombolas no estado, o suficiente para imunizar 5.000 pessoas, e que "o estado prioriza a vacinação dos grupos mais vulneráveis em seu plano". Além disso, afirmou que a aquisição de mais vacinas pelo Ministério da Saúde "é crucial para a continuidade da campanha e expansão dos públicos-alvos".

Uma funcionária do Departamento de Saúde de Cananeia, porém, disse à reportagem que esses grupos não foram vacinados porque o governo do estado não enviou doses suficientes.

O pescador Carlos Coutinho, 53, é um dos líderes da comunidade quilombola de Porto Cubatão, que foi fortemente afetada pela pandemia,. "Nós vivemos aqui de pesca, principalmente de frutos do mar, para abastecer os restaurantes da região. Sem turismo, não sobrou nada. A gente não sabe o que fazer agora", afirma ele.

Sua filha, Pamela Coutinho, 27, define a situação como de abandono. "Tem bastante gente sem emprego, sem ter do que sobreviver, e sem a vacina. Foram vacinadas algumas pessoas mais velhas, que foram na cidade porque já era a idade delas. Mas, da lista que a gente fez aqui, não chegou nada", diz.

Para o defensor público estadual Andrew Toshio Hayama, os quilombolas devem fazer parte do grupo prioritário porque "moram em áreas, em geral, geograficamente mais afastadas e desprovidas de infraestrutura, equipamentos públicos e serviços de saúde. Não têm transporte adequado para chegar aos hospitais e tampouco recebem equipes médicas como deveriam", diz.

"E são grupos que têm uma vida coletiva muito intensa, um modo diferente do nosso. Isolamento para eles é muito complicado. Não é só uma questão cultural, mas também econômica, porque trabalham em grupo, dependem de atividades coletivas, com mutirões na roça no caso da agricultura", completa.

Segundo o defensor, que atua no Vale do Ribeira, "a vacinação de quilombolas na região não tem caminhado de forma homogênea, mas tem caminhado", diz ele.

A vacinação de quilombolas tem uma série de desafios, diz ele, como na comunidade de Bombas, em Iporanga, também no litoral sul, cujo acesso se dá por uma trilha de quatro horas. "Havia um receio de não conseguir fazer o transporte adequado das vacinas, porque tem muito sol, lama. Aí nessa comunidade combinamos que eles se deslocariam até os postos de saúde", dia Hayama.

Doria chegou a retirar os quilombolas do grupo prioritário para vacinação no estado no começo deste ano, mas voltou atrás após ser cobrado. O Plano Nacional de Imunizações, organizado pelo Ministério da Saúde, porém, não previu prioridade para esses grupos.

Isso fez com que os quilombolas tivessem que recorrer ao Supremo Tribunal Federal para garantir a vacina, que começou a chegar no fim de março, conta Arilson Ventura, coordenador da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos).

"Começou a chegar agora, mas não é para todos. Na comunidade que eu vivo, Monte Alegre, em Cachoeira do Itapemirim [ES], levantamos 420 pessoas que precisam se vacinar logo, e chegou vacina para 265. Pediram mais 15 dias para chegar o restante. Mas a gente tem também um processo de compreensão, porque sabe que não tem vacina para todos", diz ele.

Ventura afirma que a Covid-19 foi forte em alguns locais, como na comunidade de Graúna, em Itapemirim (ES), onde cerca de 200 das 2.000 pessoas que vivem lá se contaminaram, diz. "Se a moda pega, a gente perde o controle", afirma.

Andreia Nazareno dos Santos, 41, vive na comunidade quilombola de Grossos, em Bom Jesus (RN) e também esperava mais celeridade. "Pensamos que viria um número de doses que poderia contemplar todo mundo, de 18 para cima. Mas as doses que vêm são poucas. Para minha comunidade, tá vindo 160 doses, mas são 150 famílias, umas 500 pessoas", afirma.

"A nossa luta é porque somos um grupo vulnerável. Praticamente todas as comunidades são bem distantes das cidades, ficam a coisa de 300 km do município. E muitas das vezes nessas comunidades não têm água potável, posto de saúde, atendimento médico. As vacinas precisam chegar até elas por conta da vulnerabilidade, não tem álcool em gel, não nem tem água pra lavar a mão sempre. Para quem mora no interior, longe das cidades, fica muito difícil", conclui.

Reportagem da Folha mostrou também que começou a chegar a vacina à comunidade de Bananeiras, na Ilha de Maré, uma das três ilhas da Baía de Todos-os-Santos que pertencem a Salvador.

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