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Ataques de onças a índios no parque do Xingu levam a força-tarefa inédita

FSP, Ambiente, p. B8.
Autor: Rodrigo Vargas
25 de nov de 2018

Uma força-tarefa com técnicos da Funai e do ICMBio fará uma expedição para capturar onças que circulam pelas imediações de ao menos quatro aldeias do Parque Indígena do Xingu, na região nordeste de Mato Grosso.

Desde maio, segundo a Funai, foram contabilizados quatro ataques desses felinos a indígenas no parque, com duas mortes. O avanço do desmatamento e das queimadas no entorno da reserva é apontado como uma possível causa.

A primeira vítima foi uma pajé da etnia camaiurá, Kuianap Kamayurá, 56, atacada no dia 9 de maio quando se dirigia a uma área de roça na região do Posto Leonardo Villas Boas.

No dia 12 de junho, outro ataque resultou na morte do índio Malale Waurá, 55, da etnia uaurá. Outros dois casos foram relatados em julho e agosto. Um jovem escapou sem ferimentos e outro está desaparecido.

A situação é qualificada como "raríssima" por Otávio Moura Carvalho, da CGPC (Coordenação Geral de Promoção da Cidadania), da Funai. Segundo ele, é a primeira vez, nos 57 anos de existência do parque, que uma operação nestes moldes é organizada.

"Eu trabalho no Xingu desde 1985, sempre teve muita onça por lá, mas elas nunca tinham atacado dessa maneira", relata.

Carvalho, juntamente com técnicos do ICMBio e do Ibama, participou de um diagnóstico de campo na tentativa de identificar os animais que rondam as aldeias.

Com o auxílio de câmeras (chamadas de "armadilhas fotográficas") espalhadas por 20 pontos do parque, foram registradas imagens de quatro fêmeas e um macho de onça-pintada em uma área de amostragem de 300 quilômetros quadrados.

Em nota, a Funai afirmou que o macho é o principal suspeito do ataque à pajé. O "animal problema", segundo o órgão, foi o mais registrado pelas câmeras no perímetro das aldeias.

"A providência a ser tomada é identificar, capturar e, possivelmente, remover o animal-problema (...) A médio e longo prazos, deve-se buscar o manejo dos fatores que estão levando as onças a chegarem perto das aldeias", diz o órgão, em um trecho.

A expedição está prevista para começar no dia 27 e deverá se estender pela primeira semana de dezembro.

Os animais capturados serão encaminhados a um refúgio de grandes felinos mantido pela organização não governamental NEX a 80 quilômetros de Brasília.

De acordo com a fundadora e presidente da entidade, Cristina Gianni, o trabalho de acolhida vai exigir atenção e paciência redobrados.

A reação do felino de vida selvagem, ao ser contido, pode ser de extrema agressividade. Então é preciso que sejam mantidos, neste primeiro momento, em uma espécie de quarentena, com segurança", relata.

No caso de animais com histórico confirmado de ataques a humanos, explica ela, não é recomendável a reinserção à natureza. "Onças normalmente se mantêm afastadas dos humanos. A tendência, nos casos em que essa barreira é rompida, é que o animal repita o comportamento".

O Xingu foi criado em 1961. Seu território, de 2,8 milhões de hectares, abriga 6.000 indígenas de 16 etnias e também as últimas áreas de floresta contínua da região.

Enquanto se mantém preservado, o entorno do parque abriga imensas áreas de pastagens e de plantações de milho e soja.

"Nos últimos 30 anos, 66% das florestas nas adjacências (...) foram desmatadas e substituídas por grandes monoculturas de base agroquímica", afirmou o ISA (Instituto Socioambiental), em nota sobre o aniversário de criação do parque, comemorado em 14 de abril.

Ilhada, a reserva se tornou o único refúgio para muitas espécies da fauna nativa.

Para Carvalho, este cenário pode ajudar a explicar os recentes ataques. "O que está acontecendo é um desequilíbrio muito grande. O desmatamento e fogo cresceram muito no entorno. Para onde o bicho vai fugir?", afirma.

Além da grande concentração de animais qu e são presas habituais das onças, como catetos, cervos e tatus, há ainda uma população crescente de cães domésticos no parque.

Nas aldeias, a notícia dos ataques tem transformado a rotina dos moradores. De acordo com Wareaiup Kaiabi, presidente da ATIX (Associação Terra Indígena do Xingu), caminhadas noturnas foram abolidas.
"Todos estão com muito medo. Pouca gente fica conversando na frente de casa até mais tarde, como era o costume. Alguns estão evitando até ir nas roças", conta.

Para evitar novos ataques, a Funai orientou os indígenas a se deslocarem sempre em grupos de cinco a seis pessoas, especialmente em áreas de roça ou trilhas mais afastadas. Outra preocupação é que os indígenas tentem abater os animais para resolver o problema.

"Para muitos indígenas, a onça representa um elemento sagrado. Para outros, esse elemento sagrado se perdeu e eles passaram a considerar a onça como um problema a ser eliminado", disse Rogério Cunha de Paula, coordenador-substituto do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap/ICMBio).

FSP, 25/11/2018, Ambiente, p. B8.

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/11/ataques-de-oncas-a-indio…

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