O Globo, Tema em discussão, p. 6
Autor: GUGGENHEIM, Frank; LERER, Rebeca
17 de Jan de 2007
Angra 3
Em boa hora
Nossa opinião
Ainda este mês, no dia 30, o Conselho Nacional de Política Energética deverá se reunir tendo em pauta a retomada das obras da usina nuclear Angra 3. Embora todos os estudos técnicos indiquem que há economicidade na conclusão dessa usina, a decisão foi sendo postergada nos últimos anos seja por motivos políticos - o receio do governo de desagradar a grupos de pressão nacionais e no exterior que fazem campanhas permanentes contra o uso da energia nuclear, mesmo que para fins exclusivamente pacíficos - ou por questões financeiras, pois o setor é monopólio da União.
No entanto, a partir do racionamento de 2001/2'002, ficou evidente para todos que o Brasil precisa ampliar seus parques de usinas térmicas para geração de eletricidade, a fim de evitar o esvaziamento de reservatórios de hidrelétricas nos períodos de pouca chuva. A opção do uso do gás nas termelétricas simplesmente não se mostrou viável por escassez de oferta do combustível. E a queima de óleo seria desastroso, tanto pelo custo como pelo impacto ambiental negativo em um momento que o mundo começa a se preocupar seriamente com as emissões de gases poluentes causadores do efeito estufa.
Em face da falta de alternativa e do avanço da tecnologia nuclear, especialmente no que se refere à segurança das usinas, grupos ambientalistas começaram a rever sua posição crítica e hoje encaram a geração de energia de origem termonuclear como uma opção valida.
No caso do Brasil, trata-se de uma opção racional. Duas usinas estão em pleno funcionamento junto aos principais centros de consumo do país, sendo que Angra 3 será uma cópia melhorada da última delas (Angra 2), que tem batido seguidos recordes operacionais e é usada como uma das referências da indústria. Em decorrência do antigo acordo com a Alemanha, o Brasil tem equipamentos estocados para conclusão da usina e ainda domina, em grande parte, a tecnologia para sua construção.
Não fazê-la seria uma sandice.
Equívoco atômico
Outra opinião
Frank Guggenheim e Rebeca Lerer
As justificativas do governo Lula para renovar o flerte com o programa atômico são as de sempre: a necessidade de capacitar o país em ciência e tecnologia e a sedução belicosa de que somente países que têm armas nucleares contam no jogo das grandes nações, com o reforço recente da falácia de que usinas nucleares minimizam os efeitos do aquecimento global.
Entre as décadas de 1930 e 1960, a política de ciência e tecnologia era amarrada à pesquisa sobre energia nuclear. Capitaneada pelo almirante Álvaro Alberto, esta fase gerou frutos duradouros, como o CNPq. Mas hoje respiramos outros ares. Temos 25 núcleos de excelência científica em 11 áreas e mais de 60 mil cientistas e engenheiros de alto nível. Não construir Angra 3 não impedirá que tenhamos métodos sofisticados para fazer exames de tireóide, por exemplo.
A defesa das usinas sempre serviu de fachada para encobrir a fabricação e o uso militar de armas atômicas. É bom lembrar o físico Robert Oppenheimer: "Quem disser que existe uma energia atômica para a paz e outra para a guerra está mentindo." Basicamente, o reator que produz energia é o mesmo que pode produzir a bomba. Desmontar o argumento de que a energia nuclear é solução para o efeito estufa também não é mistério. Segundo José Goldemberg, professor da USP, 3 mil reatores nucleares não bastariam para minimizar os impactos das mudanças climáticas.
É um desperdício investir R$ 7 bilhões em Angra 3, que não eliminará risco de apagões. Serão necessários pelo menos seis anos para a conclusão da obra, gerando apenas 1.350 MW. Com cerca de 12% do investimento, o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica conseguiu economizar o equivalente a uma usina de 5.124 MW. Vale lembrar ainda que a energia nuclear ao redor do mundo está em declínio. Em 2006, oito reatores na União Européia foram desligados e nenhum entrou em operação.
Dada a abundância de alternativas limpas e renováveis para o desenvolvimento do país, oxalá possa o governo Lula iniciar seu segundo mandato enterrando de vez este dinossauro radioativo.
Frank Guggenheim é diretor executivo do Greenpeace Brasil e Rebeca Lerer é coordenadora da Campanha de Energia/Clima.
O Globo, 17/01/2007, Tema em discussão, p. 6
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